GRANDE CISMA

ATÉ À DIVISÃO FINAL

A festa dos hospitais

A manchete de hoje do Público enche-me a barriga: há médicos a receber incentivos para cirurgias no horário normal. Com base num relatório da Inspecção-Geral das Actividades em Saúde (IGAS), o jornal dá conta de casos de “médicos que pedem licenças sem vencimento e que fazem um novo contrato individual de trabalho com os hospitais conseguindo subir muito o vencimento”; do caso de um médico que “recebia para estar de prevenção dentro do seu horário”; de outro que “tinha sempre um horário normal das 8h às 15h, passando a receber horas extraordinárias das 15h às 20h e horas de prevenção das 20h às 8h”. Uma festa de horas em euros. O sistema de incentivos foi criado para gerir as listas de espera para cirurgia. Em cinco anos, reduziu o número de inscritos em 35% e a média de tempo de espera por uma operação em 63%. Bom? Diz a IGAS: “A produção adicional, quando realizada dentro do tempo normal de trabalho, demonstra que a actividade normal teria capacidade suficiente para dar satisfação às necessidades da procura e que, afinal, a lista de espera é de aparência fictícia, embora real para os utentes”.


You can’t let the animals die in a movie… only the women.

— Billy (Sam Rockwell), Seven Psychopaths View high resolution

You can’t let the animals die in a movie… only the women.

— Billy (Sam Rockwell), Seven Psychopaths

Este é o tempo das finanças. O tempo da técnica absoluta: “negócios são negócios”. O tempo dos “literatos esteticizantes no vazio de valores”, como escrevia António Pinto Ribeiro no ípsilon. Joguemos esse jogo: nos dez anos da guerra do Iraque, olhemos para alguns números. Sem mortos; com notas de dólar. Os custos da guerra para os Estados Unidos estão estimados, actualmente, em 1,7 biliões (trillions) de dólares. Sem contabilizar juros sobre o financiamento, nem gastos de saúde com  veteranos. Os juros, a pagar até 2053, são mais 4 biliões (trillions) de dólares. Os custos estimados para esse mesmo ano para assistência médica e pensões de veteranos ascendem aos 970 mil milhões (billions) de dólares. É o que mostra o gráfico. O produto interno bruto dos Estados Unidos era em 2011, segundo os dados do Banco Mundial, de 14,99 biliões (trillions) de dólares. View high resolution

Este é o tempo das finanças. O tempo da técnica absoluta: “negócios são negócios”. O tempo dos “literatos esteticizantes no vazio de valores”, como escrevia António Pinto Ribeiro no ípsilon. Joguemos esse jogo: nos dez anos da guerra do Iraque, olhemos para alguns números. Sem mortos; com notas de dólar. Os custos da guerra para os Estados Unidos estão estimados, actualmente, em 1,7 biliões (trillions) de dólares. Sem contabilizar juros sobre o financiamento, nem gastos de saúde com  veteranos. Os juros, a pagar até 2053, são mais 4 biliões (trillions) de dólares. Os custos estimados para esse mesmo ano para assistência médica e pensões de veteranos ascendem aos 970 mil milhões (billions) de dólares. É o que mostra o gráfico. O produto interno bruto dos Estados Unidos era em 2011, segundo os dados do Banco Mundial, de 14,99 biliões (trillions) de dólares.

I have very bad posture

— Kurt Cobain (Nirvana), MTV Unplugged

The whole town’s underwater. You’re grabbing a bucket when you should be grabbing a bathing suit.

— Sgt. Jerry Wooters (Ryan Gosling), Gangster Squad


I might not actually be a wizard…

— Oz (James Franco), Oz the Great and Powerful View high resolution

I might not actually be a wizard…

— Oz (James Franco), Oz the Great and Powerful

Europa, 2014

Há eleições europeias em 2014 (Maio). Segundo um inquérito do Eurobarómetro, de ontem, a grande maioria dos europeus acredita, se tivesse mais informação sobre o impacto das instituições europeias nas suas vidas, a participação nas eleições seria maior. A Comissão Europeia aproveitou para sugerir que se informassem os cidadãos de pouco mais que clubite e lugares: que os partidos façam saber a que família europeia pertencem e quem apoiam para presidente da Comissão.

Do outro lado do Atlântico (Harvard), Dani Rodrick apela a uma cidadania global. O economista turco argumenta que “impor a actividade de regulamentação a sistemas de administração supranacionais, como a Organização Mundial do Comércio ou a Comissão Europeia, poderá resultar em défice democrático e em perda de legitimidade”. A “responsabilidade perante os eleitores nacionais é indirecta e incerta, não geram a filiação política”, diz.

A “filiação política” de que Rodrick está de facto nos executivos e parlamentos nacionais, onde todos os êxitos e perturbações nacionais e transnacionais contam até ao último voto, onde estão, óptica popular, os responsáveis pela prosperidade ou infortúnio. O economista diz que é necessário “‘globalizar’ os governos nacionais”. Como? Promovendo uma cidadania de sensibilidade global – exercendo assim pressão para a transformação dos órgãos nacionais.

Muito bem. Os europeus podem começar por dentro, pela própria União Europeia – mas não pelo quem é quem nos cargos políticos. Como está o debate político para as eleições antecipadas na Bulgária? Como está o fenómeno da emigração no Báltico? O que se passa na literatura eslovena? Se considerarmos que tudo isto tem uma importância muito relativa, mínima, não sairemos do sítio tão cedo.

A lei eleitoral em Itália ainda não permite por exemplo que sejam os cidadãos a escolher os candidatos que cada partido apresenta. Para além disso é essencial reduzir o número de deputados, combater a corrupção, reintroduzir a legislação sobre fraudes fiscais e discutir o conflito de interesses nos cargos de poder.

Gianni Pittela, vice-presidente do Parlamento Europeu, em entrevista ao i

Nota: Na imprensa portuguesa de hoje, Fátima Bonifácio diz que Beppe Grillo “é um palhaço, é um indivíduo irresponsável” (Público); e Catarina Falcão pergunta a Pittela se “um governo com o apoio de Grillo pode ser levado a sério” (i). O movimento de Grillo conseguiu um quarto dos votos em Itália. Talvez seja hora de abandonar o snobismo e a condescendência.

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